A IDENTIDADE DEPOIS DA INOCÊNCIA: ANTÔNIO TORRES
E LIMA BARRETO
Pretender abordar a questão da identidade pode soar como uma proposta repetitiva que se concentra em assuntos pisados e repisados. Sobretudo após diversas contribuições consistentes na área, como as de Antônio Cândido e Silviano Santiago, para citarmos apenas alguns expoentes da crítica literária neste século. No entanto, é fundamental considerar o caráter inesgotável das discussões sobre identidade bem como seu lugar sério e relevante na agenda das pesquisas no século XX, em qualquer território, mas especialmente no nosso, brasileiro e latino-americano. De qualquer modo, o caminho que me disponho a percorrer no âmbito da construção da identidade não é dos mais tradicionais, o que também não é necessariamente uma virtude pelo risco presente na tentativa.
O ponto de partida é uma situação comum aos dois romances focalizados: Clara dos Anjos, concluído por Lima Barreto no início de 1922, e Adeus, velho, de Antônio Torres, publicado pela primeira vez em 1981. Nas duas obras as protagonistas passam por experiências semelhantes: ainda jovens, perdem sua virgindade em envolvimentos amorosos caracterizados pela sedução. É preciso, porém, abrir todo um conjunto de explicações no sentido de resguardar estas coincidências dos enredos e ao mesmo tempo não supervalorizá-las, de modo a não encobrir as divergências que os romances acabam por evidenciar.
O primeiro aspecto a ser ressaltado relaciona-se com o contexto. É natural que a perda da virgindade tenha significados diferentes em função das épocas em que os dois romances são ambientados. Clara dos Anjos cobre o início do século enquanto Adeus, velho, mesmo no seu início, retrocede até o final da década de 50, aproximadamente. Não se deve ignorar, portanto, a mudança de costumes operada neste período de tempo, o que nos obriga a relativizar o grau de inocência de cada uma das protagonistas.
Sem dúvida, estas particularidades dos contextos vão determinar diversas direções que a análise da identidade nos romances adquire. As diferentes concepções do público e do privado no início e na segunda metade do século ficam refletidas na caracterização de Clara e de Virinha. Vejamos, assim, alguns dados sobre o cotidiano da protagonista de Lima Barreto:
Raramente saía, a não ser para ir bem perto, à casa de Dona Margarida, aprender a bordar e a costurar, ou com esta ir ao cinema e a compras de fazendas e calçado. A casa dessa senhora ficava a quatro passos de distância da do carteiro. [ O carteiro é o pai de Clara.] Apesar de ser uso, nos subúrbios, irem as senhoras e moças às vendas fazer compras, Dona Engrácia, sua mãe, nunca consentiu que ela o fizesse, embora de sua casa se avistasse tudo o que se passava, no armazém do "Seu" Nascimento, fornecedor da família.
Essa clausura mais alanceava sua alma para sonhos vagos, cuja expressão ela encontrava nas modinhas e em certas poesias populares.[1]
Observa-se, neste trecho, todo um projeto de manter fronteiras nítidas entre as esferas do público e do privado. À protagonista é vedada a livre circulação pelo espaço público. Se estiver desacompanhada, então, o raio é encurtado para quatro passos de sua casa. Tal estratégia pretende acentuar o descompasso entre o domínio familiar e todas as demais áreas sobre as quais não se espera deter qualquer tipo de controle. Assim como o espaço público é bloqueado na direção de dentro para fora, tais restrições completam-se com uma seleção rigorosa do que pode vir de fora para dentro: não é qualquer um que vai conquistar o direito de ingressar na casa dos Anjos. Só mesmo através de artimanhas muito bem urdidas é que o malandro e violeiro Cassi Jones consegue a proeza de conhecer a residência de Clara, para mais tarde seduzi-la.
Quanto às conseqüências deste quadro para a caracterização da protagonista, não se pode dizer que elas sejam imprevisíveis. Cercada por todos os lados, sem poder ter contato com a vida pública, a moça de dezessete anos torna-se puro desconhecimento e sede de uma rede interminável de fantasias. O escudo construído ao seu redor alimenta sua inocência e, ao mesmo tempo, a deixa exposta e despreparada para a primeira oportunidade perigosa ou adversa que se lhe apresentar. Trata-se de uma virgindade integral, de corpo e mente, que se revela, no menor contato com a esfera pública, absolutamente frágil.
Esta fragilidade é um dos aspectos mais relevantes do romance de Lima Barreto. É ela que vai dar o tom da noção de identidade esboçada ao longo da obra. E é ainda a saliência desta fragilidade que pode introduzir um outro elemento que distingue Clara dos Anjos e Adeus, velho: o momento diferente que a sedução ocupa em cada uma das narrativas. Em Clara dos Anjos, ela é guardada para o final; em Adeus, velho, está nas suas primeiras páginas. A idéia de comprovar como a identidade é débil leva Lima Barreto a preparar o terreno. Nos nove primeiros capítulos do romance, o autor expõe os contrastes entre uma expectativa de imunidade na vida privada e a constatação da crueldade e do poder de que se reveste a vida pública. A conclusão retida para o último capítulo mais uma vez é a esperada e acaba de compor o quadro de uma identidade agredida.
A recordação do próprio episódio da sedução já evidencia os abalos sofridos pela identidade: "Lembrando-se, parecia-lhe que, no momento, lhe dera não sei que torpor de vontade, de ânimo, como que ela deixou de ser ela mesma, para ser uma coisa, uma boneca nas mãos dele" 2. O deixar "de ser ela mesma" insinua a inconsistência da antiga identidade e antecipa ainda o caráter irreversível da ação. Clara não só deixa de ser ela mesma naquele instante como também não vai mais voltar a ser a mesma. As perspectivas agora não são animadoras:
Se "ele" a abandonasse, ela estava completamente desmoralizada, sem esperança de remissão, de salvação, de resgate... Moça, na flor da idade, cheia de vida, seria como aquele céu belo, sedutoramente iluminado pelas estrelas, que também tinha ao lado de tanta beleza, de tanta luz, de não sabia que sublime poesia, aquela mancha negra como carvão.3
Seduzida, grávida e abandonada, a protagonista não dispõe de recursos para ser alguém. Desprovida da oportunidade do casamento, o que a resgataria da infâmia, de acordo com os padrões da época, Clara vê aquela mancha negra colar-se definitivamente à sua imagem, inviabilizando a outra imagem, promissora, inocente e ilusória. O arremate, que vem após a confirmação da fuga do sedutor, é uma fala taxativa da protagonista: "Nós não somos nada nesta vida."4
É importante ainda reiterar que este comprometimento da identidade em Clara dos Anjos passa pela condição vulnerável da vida privada que não consegue resistir à pressão da esfera pública nem mesmo no seu próprio espaço físico. Clara é seduzida em casa. Sua ruína, contudo, chegaria certamente ao conhecimento público. Este circuito prenuncia a análise empreendida por Jean Baudrillard 5 acerca da inversão entre o público e o privado e da transparência da intimidade. Faltam, ainda, em Clara dos Anjos e no próprio tempo de Lima Barreto fatores indispensáveis que conduzem Baudrillard a tais conclusões. É somente na época de Adeus, velho que os meios de comunicação de massa atingem um estágio de penetração capaz de alterar as configurações do público e do privado, da intimidade e da identidade.
O peso da comunicação de massa faz-se sentir já no começo do romance de Antônio Torres que por sua vez apresenta a sedução, como já foi dito, nas páginas iniciais. É na possibilidade de estabelecer um contato mais íntimo com essa cultura que aposta o caminhoneiro para persuadir Virinha a se entregar a ele: "Então ele falou de lugares animados, lugares bonitos, que tinham de tudo: cinema, estação de rádio, boates, ruas iluminadas, (...) lugares que tinham até televisão, sabia o que era?" 6 A aposta é precisa. A protagonista encontra-se afastada daquela vida pelo tempo e pelo espaço: no que se refere ao tempo, é possível estimá-lo na década de 50; quanto ao espaço, trata-se de uma acanhada cidade do interior. Conjugadas estas circunstâncias, pode-se avaliar o fascínio despertado em Virinha pelas promessas do caminhoneiro, pela oportunidade que se abria, ao fugir com ele, de ir ao encontro de um mundo novo que se contrapunha à mediocridade interiorana.
A reação da protagonista indica sua predisposição para aderir a um outro modelo cultural e moral. Ao aceitar o convite do caminhoneiro, Virinha não está cedendo a uma paixão pelo motorista, mas à possibilidade de se transportar naquele caminhão, para encontrar paixões em um novo espaço-tempo. Ficam para trás casamentos virtualmente fracassados como os de suas irmãs e o comportamento casadouro de Clara dos Anjos. Se aquela cidade ainda não está de acordo com os novos tempos, já se sabe que eles existem em outro lugar. E é em busca disso que Virinha vai. Deixar-se seduzir, abrir mão deliberadamente da inocência: eis a fórmula da protagonista que parece pressentir aquilo que Garcia Canclini denominou tão bem como jogo de ecos.7 A ressonância e a circularidade da vida urbana e da vida midiática constituíam uma imagem longínqua e um apelo. Mais de vinte anos depois, Virinha confirma: "Dei porque quis. Queria vir embora e pra vir embora comecei assim: dando." 8 É este jogo de ecos que atrai a personagem para a cidade grande e, ao mesmo tempo, caracteriza um reordenamento das noções de público e privado. Aqueles valores morais que sustentavam a nitidez da divisão começam a perder espaço para um outro campo de forças em que cidade e mídia se complementam.
Virinha quer seguir para o meio do redemoinho e, desse modo, o romance se constitui na tentativa de reconstruir a identidade. Não se trata de vingança contra o caminhoneiro que a seduziu e em seguida a deixou na estrada; nem de uma luta para reconquistar os tais valores morais perdidos também com a perda da virgindade; nem ainda do percurso de Clara dos Anjos que se encaminha para um final que reúne sedução, degradação moral irreversível e comprometimento da identidade. Virinha quer vencer, quer se afirmar, quer localizar um espaço seu e o romance vai se desdobrar justamente a partir destes desejos e dos obstáculos que vão acompanhar este processo.
Muitos anos após sua chegada à cidade grande, a batalha ainda não está resolvida. Quando o caminhoneiro que a abandonou é encontrado morto, a protagonista é acusada de assassinato. Ela vai parar na prisão e seu nome e sua imagem vão parar no rádio e na televisão, os mesmos meios que contribuíram para sua migração. Neste novo momento, sua cidade de origem já está mais acostumada com a comunicação de massa e Virinha enquanto notícia gera uma repercussão local:
Alguém daqui tem que ir correndo na capital, e dizer na cara desses do rádio, da televisão e das gazetas (...) pois carece de dizer a todos, sem gaguejar, que essa moça não é nenhuma Maria Ninguém.
(...)
De repente, no vídeo, entrevistas de rua sobre ela. Uns achando que se tratava de uma criminosa mesmo, outros dizendo que ela não parecia isso.9
A reação imediata dos familiares que permaneceram na cidade natal é a de reintegrar à personagem uma identidade. Trata-se, porém, de um conceito e de um formato antigo de identidade que já não está em conformidade com a circulação de notícias através do rádio e da televisão. São estes meios que vão garantir a nova identidade de Virinha. Os próprios parentes percebem a desigualdade de forças, a dificuldade de partir para um enfrentamento contra os meios de comunicação de massa. Assim, resta a opção de acompanhar diante da tela aquele julgamento eletrônico, a televisão transformada em tribunal. Ou ainda tentar usar aquelas mesmas armas para outro fim, como se percebe na seguinte fala da protagonista: " - É uma idéia que estou tendo agora. Vou tentar falar com alguém da televisão para botar toda essa fofoca numa novela. Aí eu lavo a égua, não é?" 10
No plano das idéias, antes de jogar uma pedra sobre o assunto ou tentar através das instituições uma reparação, propõe-se esta redenção midiática, coincidindo esta atitude com o diagnóstico estabelecido por Beatriz Sarlo: "O público recorre à televisão para alcançar aquelas coisas que as instituições não garantem: justiça, indenizações, atenção." 11 Necessário ainda é ressaltar que nem o romance nem Beatriz Sarlo resvalam para uma confirmação simplista desta hipótese, isto é, que a televisão é, de fato, mais eficaz que as instituições. De qualquer modo, a dúvida é lançada. Pode-se ainda associar a idéia de Virinha com uma das propostas de Italo Calvino para a permanência da literatura:
Reciclar as imagens usadas, inserindo-as num contexto novo que lhes mude o significado. O pós-modernismo pode ser considerado como a tendência de utilizar de modo irônico o imaginário dos meios de comunicação... 12
Através da protagonista, Antônio Torres esboça esta reciclagem, que, mesmo sem ser concretizada, se instala como uma alternativa interessante tanto para a problematização da identidade quanto para um olhar sobre a literatura produzida neste final do século XX. Aliás, posto desta forma, seria possível interpretar que a problematização da identidade e a literatura contemporânea seriam instâncias isoladas, independentes, quando, no mínimo, o que se tem é a constituição de uma determinada identidade a ser apreendida a partir da leitura do conjunto das práticas textuais. É neste sentido que ganha importância a proposta da reciclagem elaborada por Italo Calvino. Esta "receita" parte da idéia de que não há como ignorar a larga difusão da cultura de massa. Tal constatação já encontra ressonância nas análises realizadas por alguns críticos e professores brasileiros que se dispõem a investigar a cena literária contemporânea.
É assim que Flora Sussekind percebe 13 nos textos ficcionais brasileiros dos anos 80, a necessidade e a prática de uma reavaliação da privacidade, motivada pela coexistência desta produção literária com a mídia. Semelhantes observações despontam em texto de Eduardo Coutinho que avalia a adequação do termo "pós-modernismo" para a ficção latino-americana contemporânea com base, entre outros fatores, na "presença mais intensa da mídia extraliterária"14. E cabe também citar a vocação urbana da ficção contemporânea detectada por Beatriz Resende que correlaciona este fenômeno com a situação de que "a cultura brasileira não está imune aos efeitos globalizantes" da televisão.15
O romance de Antônio Torres adquire relevo neste cenário por se colocar numa posição estratégica de transição em diversos planos: o ano de sua publicação, 1981, reflete o início de um período marcado por este destaque mais acentuado da mídia; o próprio tempo coberto pela narrativa contempla este caráter de transição pois são retratados momentos diferentes da situação cultural brasileira quando Virinha é jovem e quando ela já ultrapassou os quarenta anos; a noção de inocência necessita também de relativização porque identifica um estágio inicial de entusiasmo desenfreado com o mundo espetacular da cidade grande e da cultura industrial emergente, mas este estado de espírito divide espaço com o desejo consciente de dar adeus à vida rural estagnada; por fim, as concepções de público e de privado encontram-se em uma etapa que carece de uma redefinição mais precisa, pois afinal quem é Virinha: aquela moça do interior que tem uma família, uma Maria Ninguém, uma terceira construída pelas imagens televisivas ou ainda uma quarta que vai recolher todas estas experiências ?
Todos esses aspectos podem ser reunidos e levados em consideração para chegarmos a um questionamento da identidade que acrescenta novos argumentos ao debate. De Clara dos Anjos a Adeus, velho, o perfil da cultura de massa ganhou novos traços, garantindo seus reflexos em um número cada vez maior de campos da vida social. Fica o desafio para a produção e a crítica literária de acompanhar os movimentos desta manifestação cultural e tentar intervir para que os resultados sejam os melhores possíveis, longe da intolerância, longe da mistificação.
[1] Lima BARRETO. Clara dos Anjos. Rio de Janeiro; Belo Horizonte: Garnier, 1990. p. 46.
2 Id. Op. Cit., p.139.
3 Id. Op. Cit., p.136-7.
4 Id. Op. Cit., p.155.
5 Jean BAUDRILLARD. Simulacros e simulação. Trad. Maria J. C. Pereira. Lisboa: Relógio d'água, 1991. p. 41.
6 Antônio TORRES. Adeus, velho. 3. ed. São Paulo: Ática, 1985. p. 8.
7 Nestor Garcia CANCLINI. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Trad. Ana R. Lessa e Heloísa P. Cintrão. São Paulo: Edusp, 1997. p. 290.
8 Antonio TORRES. Adeus, velho. 3. ed. São Paulo: Ática, 1985. p.122
9 Id. Op. Cit., p. 20 e 115.
10 Id. Op. Cit. p. 36.
11Beatriz SARLO. Cenas da vida pós-moderna. Trad. Sérgio Alcides. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 1997. p. 77.
12 Italo CALVINO. Seis propostas para o próximo milênio. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Cia das Letras, 1990. p. 111.
13 Flora SUSSEKIND. Ficção 80: dobradiças e vitrines. In: Papéis colados. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 1993. p.240.
14 Eduardo COUTINHO. O pós-modernismo e a ficção latino-americana contemporânea: riscos e limites. In: 3º Congresso ABRALIC - Limites: Anais. São Paulo: Edusp; Niterói: ABRALIC, 1995. p.427.
15 Beatriz RESENDE. A ficção brasileira na era da globalização da cultura. In: Terceira margem. Rio de Janeiro: UFRJ, nº3, 1995. p.119.